Os editores entrevistam Angela Maria Carneiro de Carvalho

Posted on 12 de Junho de 2012 por

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Prezados Colegas,

Nós, editores do blog, tivemos a idéia de entrevistar alguns colegas de nossa rede. Começamos convidando a pesquisadora Angela Maria Carneiro de Carvalho que está realizando o doutorado na UFSCar sob orientação do Professor Roberto Grün e atualmente desenvolve o doutorado sanduíche em Paris, na França. Angela  gentilmente respondeu às nossas 4 perguntas via e-mail. Gostaríamos de agradecê-la por esta contribuição ao Blog e esperamos poder dar continuidade a este projeto com os outros colegas.

Angela Maria Carneio de Carvalho é doutoranda em Engenharia de Produção na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar/SP), onde atua como pesquisadora do Núcleo de Estudos em Sociologia Econômica e das Finanças (NESEFI). Bolsista CAPES para realização de Doutorado sanduíche na École des Hautes Études em Sciences Sociales (EHESS) – Paris/ France (em andamento). Mestre em Administração Pública pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas (EBAPE/FGV-RJ). Graduada em Ciências Administrativas e Ciências Contábeis pela Universidade Católica de Petrópolis (RJ). Curso de Administração Pública no Institut International d´Administration Publique (IIAP) – Paris/ France. Possui extensa experiência na área de ensino, incluindo atuações como docente em cursos de graduação, extensão, pós-graduação e EaD: UFSCar-SP, FGV-RJ, PUC-RJ, UNESA-RJ. Como pesquisadora na FGV-RJ desenvolveu e coordenou diversos programas de extensão e pós-graduação. Concursada pelo DASP, fez carreira como Administradora no Ministério da Previdência onde atuou como assessora do Secretário de Planejamento do INAMPS e instrutora em diversos programas de treinamento. Possui trabalhos publicados nas áreas de Organização Governamental Brasileira, Seguridade Social, Ergonomia, Responsabilidade Social e Formação Gerencial.

ENTREVISTA

Os Editores: Angela, qual é o tema da sua tese e como ele dialoga com a Sociologia Econômica?

Angela: Minha tese se interessa pela produção do conhecimento em Administração no Brasil. Focalizo especialmente o período que começa na década de 1990, momento da difusão e institucionalização dos chamados Critical Management Studies (CMS) – Estudos Críticos em Administração. De origem anglo-saxônica e causas não facilmente identificáveis, os CMS possuem dentre suas razões de emergência, as reações ao New Right, ao managerialismo e às orientações da gestão ocidental diante das exigências do capitalismo globalizado. A crise diante da orientação positivista e o desenvolvimento de alternativas metodológicas e epistemológicas nos conhecimentos em Administração fizeram-se notar, naquele contexto, devido a diversas medidas do então governo Margaret Thatcher. Uma de suas consequências foi a aproximação dos departamentos de ciências sociais com as business schools; assim, essas últimas passaram a abrigar uma massa de pesquisadores comprometidos com uma vertente crítica, aliando as dimensões política e acadêmica. No Brasil, o campo dos Estudos Organizacionais tem sido dominado pela perspectiva positivista. Entretanto esta parece ter sido sistematicamente denunciada por determinados pesquisadores oriundos das mais conceituadas universidades brasileiras. Assim, uma vez que os estudos críticos se desenvolvem dentro de uma reflexão historicamente situada, a existência, na nossa história, de um conjunto de autores dispostos a denunciar sistematicamente o referencial positivista parece ter favorecido, na década de 90, a expansão da “logomarca” CMS entre os pesquisadores em Administração brasileiros.

O diálogo de minha tese com a Sociologia Econômica passa pela compreensão dos mecanismos que tornam as organizações e seus gestores suscetíveis aos comandos da área financeira. No Investor Capitalism, a ideia do shareholder como “principal” e do gestor como “agente” parece ter minado a identidade profissional e a autoconfiança dos gestores, pouco restando dos CEOs superstars já enfraquecidos pelos escândalos pós-Enron. O contexto da financeirização, da economia global – e correspondentes empresas “classe mundial” – invoca constantes desafios aos gestores do século XXI, e aos responsáveis por sua formação, incluindo aí os professores-pesquisadores e as Escolas de Negócios. Assim, a produção do conhecimento em Administração encontra- se inserida nesse espaço, onde se estabelecem relações de força, e em cuja dinâmica os saberes evoluem, absorvendo exigências, crenças e progressos de caráter científico de cada período.

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Os Editores: Porque você está realizando o doutorado sanduíche na França?

Angela: Minha relação com a França vem de longa data, especialmente pela via do idioma. Até hoje me lembro de meu pai recitando poemas franceses. Além disso, minha vida escolar foi toda passada em uma escola francesa. Estudos também na Aliança Francesa me iniciaram na literatura, geografia e história do país, num harmonioso conjunto de conhecimentos então chamados de “civilisation française” – parte dos programas preparatórios para os exames finais do curso – os exames de Nancy. Assim, voilà! , creio que este séjour já estava traçado no meu destino.

Mais recentemente, percebi o período no exterior como indispensável à minha proposta de Doutorado. Ao lado de minha experiência pessoal, o grupo de pesquisadores que são objeto da minha tese tem na experiência internacional um dos fundamentos de suas propostas críticas em Administração. Dentre os países que receberam tais pesquisadores para seus estudos de doutorado destaca-se a França – além da Inglaterra e do Canadá. A disciplina que curso na EHESS, denominada “Anthropologie politique du Brésil – le lien national face à la mondialisation des échanges culturels” ministrada pelos professores Afrânio Garcia e Vassili Rivron veio reforçar a compreensão sobre a experiência internacional demonstrando que a intensificação das trocas culturais proporcionadas pela globalização não enfraquece os vínculos com o país de origem; ao contrário, parece associar-se a novas formas de utilização das tradições nacionais e de representação da coletividade.

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Os Editores: Tem algum trabalho ou obra que você entrou em contato que gostaria de compartilhar com os colegas da rede?

Angela: Participei, no dia 23 de janeiro do seminário de lançamento do livro de Pierre Bourdieu, “Sur l’État”, já divulgado nesse blog. Retomo o assunto para um comentário

sobre o evento, que ocorreu no Collège de France, sob a organização de Gisèle Sapiro, Loïc Wacquant e Sébastien Roux. A proposta era que sociólogos, historiadores, antropólogos e políticos discutissem, a partir de suas pesquisas, a atualidade dos trabalhos de Bourdieu. A cada mesa redonda era demonstrado o conteúdo dos textos no conjunto das obras de Bourdieu e a forma como tratava a aproximação das ações da vida quotidiana com o Estado. A frequência ao evento foi impressionante, exigindo dos organizadores a abertura de salas extras com transmissão em telões. Destaco, sobre o livro, comentário de Gisèle Sapiro no link

http://laquinzaine.wordpress.com/?s=Bourdieu

Dos seminários em sociologia econômica que assisti destaco o nome de Hadrien Saig, que recebeu prêmio de melhor artigo da Revue Française de Socio-Economie em 2011 com o trabalho “Les pratiques financières des milieux populaires de Rosario (Argentine) à l’aune du démantèlement du rapport salarial fordiste”.

Dentre os autores que atuam na interface entre os temas da sociologia econômica e da gestão, destaco o livro “La construction sociale de l’entreprise – autour des travaux de Mark Granovetter”, organizado por Isabelle Huault e lançado pelas Éditions EMS – Management et societé em 2002. Fruto de seminário que buscava pontos em comum entre ambas as áreas de conhecimento (sociologia econômica e gestão), o livro apresenta contribuições em diferentes temas – seja finanças, marketing, gestão de recursos humanos, etc. – que buscam demonstrar que a gestão não pode ser reduzida a um conjunto de instrumentos de tomada de decisão orientados unicamente para a eficácia econômica.

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Os Editores: Existe alguma descoberta ou curiosidade que você gostaria de compartilhar conosco em relação à experiência do doutorado sanduíche na França?

Angela: Com relação a estudos e pesquisas creio que a experiência no exterior é bastante proveitosa no sentido de ser uma oportunidade de viver realmente a vida de estudante em tempo integral. Isso raramente acontece no Brasil, onde estamos envolvidos com diversos projetos e compromissos. As “Recherches doctorales libres” em que nos enquadramos, permitem a frequência a várias escolas e fóruns, ampliando, consequentemente o escopo de pesquisas inicialmente planejado. Da minha parte, frequentei principalmente aulas e grupos de pesquisa na EHESS e na ENS (École Normale Supérieure). Estive esporadicamente em seminários na Sciences Po e no Collège de France.

A exposição do projeto da tese para grupos de pesquisa na França trouxe um feedback bastante rico: na ENS frequentei o grupo de pesquisa do professor Michel Villette, que tem relação de longa data com o NESEFI da UFSCar. A Équipe PRO (Professions,

Réseaux, Organisations) me propiciou um diálogo mais direto com o management, o que me fez sentir bastante à vontade.

Com relação ao contato com a vida e os costumes franceses a experiência é também bastante rica A França do belo idioma, dos ricos monumentos, a França que exala história e cultura é o mesmo país das condutas por vezes rudes, do “pardon” egoísta, dos “marchands de sommeil”. Confesso ter tido problemas de moradia no início da

minha estada, por simplesmente não ter acreditado que algumas coisas pudessem acontecer. Verifiquei outros brasileiros em situação bastante semelhante. A seguir, tudo se resolveu, mas ficou a marca. Acredito que quem não quer passar por maiores problemas deve procurar com antecedência a Maison du Brésil, que fica na Cité Unniversitaire, um espaço grande e muito bonito, junto a prédios de bandeira de vários países. Ali há tudo para receber e proteger o estudante: banco, biblioteca, restaurante, e diversas facilidades. Quem deseja buscar outros espaços e outro tipo de moradia – como eu – viverá, com certeza, muitas aventuras, por vezes, entretanto, desgastantes. Por outro lado, participará do dia-a-dia da cidade, conhecerá melhor as pessoas e seus costumes e irá explorar o que a cidade coloca à disposição de seus moradores – mesmo que eventuais. Talvez essa seja a grande experiência a compartilhar: o quanto vale a pena abrir mão de conforto e segurança em nosso país de origem e vir, sem saber muito o que encontrar ou pelo que se irá passar… com apenas uma única certeza: a de que será uma aventura marcante, proveitosa e repleta de boas surpresas.

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Os Editores: Alguma palavra final?

Angela: Gostaria de agradecer aos editores do blog Sociologia Econômica no Brasil, professores Marina Sartore e João Martins Ladeira pelo convite para participar desta entrevista, sobre minha experiência como bolsista da CAPES em Paris (França) para realizar o “doutorado sanduíche” (Estágio de Doutorando no Exterior) na École des Hautes Études em Sciences Sociales (EHESS). Sinto-me honrada em participar do blog e coloco-me à disposição para quaisquer informações e esclarecimentos posteriores que se façam necessários.

Nós que agradecemos!

Os Editores.

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