Tendências da Inovação – Estudo sociológico sobre o gerenciamento de tecnologias

Posted on 25 de Janeiro de 2012 por

0


No final do ano passado, Pedro e João Editores publicaram:

Tendências da Inovação: Estudo Sociológico sobre o Gerenciamento de Tecnologias – Thales Novaes de Andrade (UFSCar – São Carlos). (Sociologia da ciência e Sociologia da Inovação).

A seguir, o prefácio, disponibilizado na página da editora:

PREFÁCIO Em primeiro lugar, gostaria de cumprimentar o autor e a editora pela oportunidade de publicar um livro, como este, que coloca em evidência questões candentes dos campos da Sociologia da Ciência e da Sociologia das Inovações. Campo, este último, ocupado, predominantemente, pela Economia e pelas abordagens de tradição schumpeteriana. Nesse sentido, a presente obra representa contraponto importante para o aprofundamento da discussão a respeito da problemática da inovação, no contexto atual do desenvolvimento científico-tecnológico. Mais que apontar “Tendências da Inovação”, como nos diz o título, Thales de Andrade avança, nesta reflexão, ao explorar novos matizes e novos ângulos do fenômeno inovativo, como o que diz respeito aos pesquisadores e à maneira como se colocam em face às transformações organizacionais, em seus ambientes de trabalho. Ademais, o presente livro estabelece estreita e original relação entre a Sociologia da Ciência e da Inovação e a Sociologia do Trabalho. Buscar as conexões entre especialidades, aproximar enfoques tradicionalmente muito distintos, como os apontados anteriormente, entre as correntes schumpeterianas ou neo-schumpeterianas e as que o autor desenvolve, bem como com os chamados evolucionistas, na área da Economia, a exemplo de Giovanni Dosi, com sua noção de paradigmas tecnológicos, é mérito inegável desse trabalho. Cria-se, desse modo, um clima muito interessante para a leitura, mesmo para quem não “milita” na área, ou para quem não é um especialista, no sentido estrito do termo. Sua leitura fácil, e, nem por isso, pouco sofisticada, convida um público bem amplo, e bem diversificado, a reflexão de temas importantes da atualidade. Daí a feliz expressão do autor, no início do livro, de que o assunto é mais bem qualificado como uma “polissemia em expansão”. Na Introdução, Andrade aponta claramente seus objetivos principais, a saber, examinar, teórica e empiricamente, as potenciais (ou reais) transformações operadas nas atitudes e comportamentos dos cientistas e pesquisadores, notadamente no que concerne à sua autonomia, em decorrência das inovações organizacionais. Ao colocar suas lentes nesse aspecto, ao invés do que tem sido corriqueiro, quando a maior parte das análises sobre tecnologia e inovação se dedica a examinar o “comportamento empresarial” e as mudanças ocorridas nos órgãos de pesquisa e sobre o “posicionamento dos gestores públicos”, o autor abre espaço para muitas possibilidades novas de tratamento da problemática da inovação. Normalmente silenciado, nas análises sociológicas, as quais, muitas vezes, procuram imputar valores e padrões de comportamento a seus “objetos de análise”, os pesquisadores encontram vez e voz no livro de Andrade. Em outras palavras, o trabalho não se limita a tecer considerações, bastante pertinentes, do ponto de vista teórico, mas, vai além, ao apresentar o depoimento de vários pesquisadores de uma importante Instituição Pública de Pesquisa Agropecuária do País, a EMBRAPA. No que concerne aos aspectos teóricos, o livro se apoia em inúmeros autores, desde aqueles representantes da corrente construtivista, até a original contribuição de Gilbert Simondon, a respeito da Filosofia das Técnicas. Nesse particular, e corroborando as reflexões de Simondon, o autor levanta um questionamento sobre o que entende ser uma tensão importante entre a “unicidade dos objetos técnicos e sua generalização”. Pensar a problemática da inovação pelo prisma de suas especificidades é avançar no entendimento de sua complexidade e irredutibilidade relativamente a outros fenômenos sociais. Na abordagem heideggeriana, muito se criticou sua excessiva abstração e generalização, ao formular sua concepção ontológica da tecnologia. Ao contrário, aqui, é apontada a importância da especificidade, da singularidade e da necessidade de se aprofundar no entendimento do fenômeno tecnológico ou da inovação, mediante aquilo que ele próprio há de revelar, em situações determinadas. Ousar a busca de construções teóricas gerais acerca dos fenômenos é, não apenas lícito, mas uma necessidade do pensamento. Contudo, e no que concerne à inovação, quaisquer generalizações devem ser contrapostas às especificidades, a depender do tipo de inovação, e do tipo particular de relação que se estabelece entre os agentes das inovações e estas mesmas. Nessa trilha antideterminista, situa-se bem a reflexão que encontramos neste livro. Essa discussão é uma possibilidade interessante de reflexão suscitada pelo trabalho em tela. Preocupado com a influência das “inovações gerenciais”, que acentuam, por exemplo, o produtivismo, em detrimento da originalidade do trabalho do pesquisador, sobre esse último ator, o livro levanta uma série de questões úteis aos formuladores de políticas públicas para o setor. Algumas dessas questões dizem respeito à problemática da avaliação. Esse aspecto é examinado em pormenores pelo autor, que identifica como sérias dificuldades para a construção de tecnologias mais originais e criativas o fato de os técnicos e pesquisadores precisarem se submeter, cada vez mais, “às novas modalidades de gestão e aos imperativos do processo produtivo, respeitando estritamente os planejamentos estratégicos e os indicadores econômicos de desempenho”. Em que pese a importância inegável do planejamento estratégico como instrumento de gestão da pesquisa, conforme atestam inúmeros trabalhos, muitos dos quais citados pelo próprio autor, neste livro, sua preocupação é quanto ao que considera ênfase excessiva nesse tipo de gestão, relegando a segundo ou a terceiro plano o espaço de liberdade e a autonomia do pesquisador. Quais as consequências de se levar ao extremo a lógica da prevalência das organizações sobre os indivíduos pesquisadores? Essa questão também encontra espaço na Sociologia das Organizações, ao discutir o tipo de estrutura e de funcionamento mais adequado para organizações de especialistas, a exemplo da EMBRAPA e das demais instituições de pesquisa. Ao citar o trabalho de Zackiewicz, é apontado que “o controle externo da Ciência e Tecnologia (C&T) implica que os agentes técnicos e científicos precisam cada vez mais comprovar quantitativamente sua eficácia”. Nesse ponto, penso ser muito oportuna a discussão que o tema propicia a respeito dos atuais modelos de avaliação conduzidos pelas Agências governamentais, voltados aos cursos de pós-graduação no país. Alguns autores têm destacado um viés quantitativista e produtivista nesses modelos, tendendo a obnubilar as possibilidades de uma pesquisa e uma pós-graduação mais criativa e pautada pela busca da qualidade. Não pretendo, aqui, estabelecer qualquer tipo de falsa dicotomia entre quantidade e qualidade. Ambas são aspectos importantes e complementares em qualquer sistemática séria de avaliação. E também penso que o livro não tenciona fazer essa dicotomia. Porém, sugere a relevância de se colocar os pesos devidos a cada aspecto a ser considerado. Por exemplo, como está citado em uma das entrevistas realizadas, os “produtos” ou resultados finais são supervalorizados, em detrimento dos processos. O cotejamento entre processo e produto parece um elemento importante na condução de um planejamento e uma avaliação adequada em instituições de pesquisa; o que não se tem verificado, como seria de esperar. Ou seja, quero dizer que tão ou mais relevante que saber quantas variedades de uma determinada planta foram produzidas por uma instituição em dado período de tempo é considerar o modo como isso foi realizado, ao longo de todo um processo muito complexo, nem sempre tangível, ou verificável imediatamente, como o é um determinado produto, a exemplo dessa variedade de planta. Enfim, o livro vem inteiramente ao encontro de todos os que querem pensar a tecnologia e a inovação, dentro de uma perspectiva crítica; nem ufanista, tampouco pessimista. As muitas discussões que giram em torno dessa problemática são, por si sós, indicativas do ambiente no qual se insere a obra de Thales de Andrade. Por essas razões, todos os que cultivam a arte do questionamento e da busca por reconhecer a complexidade que há nas coisas com as quais lidamos, certamente, terão um bom motivo para a sua leitura. Michelangelo Giotto Santoro Trigueiro Professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília

Para comprar o livro, clique aqui.

Posted in: Livros & Artigos